sexta-feira, 11 de julho de 2025

A épica entrevista

 Fui jornalista por um breve período. À época, a Dilma não tinha sofrido um golpe e o Facebook ainda era relevante.

Eu me arrisquei nessa área por se tratar de uma atividade que envolve a escrita e, confesso, porque é também a profissão do Clark Kent.

Iniciei em um jornalzinho local. Eu era um reles estagiário. Nessa condição eu não escrevia porra nenhuma. De vez em quando alguém lembrava que eu existia e me mandava preparar o chimarrão.

Porém, num raro dia frio e chuvoso de novembro me mandaram acompanhar o repórter que atendia as ocorrências policiais. Acabara de ocorrer um assalto no centro da cidade. Um assalto envolvendo reféns.

A situação foi a seguinte: Policiais flagraram um cara tentando roubar um celular. Uma perseguição a pé foi iniciada. O ladrão, desesperado, chegou em um ponto de ônibus e fez de refém a primeira pessoa que encontrou pela frente.

O assaltante, munido com uma faca, ficou cerca de vinte minutos abraçado com um sujeito, ameaçando cortar a goela do coitado.

Felizmente tudo ocorreu bem. O meliante foi preso e o refém foi libertado ileso.

Eis que a chefe da equipe ordenou:
- O Gilmar vai fotografar, eu vou entrevistar a equipe de polícia e tu…
Ela olhou para mim como um técnico olhando o pior jogador no banco de reservas.
- … Sei lá, tu faz qualquer coisa.

Decidi então entrevistar o refém.

Fui empolgado arrancar algumas palavras do assaltado. Eu, ávido para redigir a matéria da minha vida, almejava ouvir o relato épico de quem passou por uma experiência traumática, dessas que deixa marcas indeléveis na alma, dessas de quem acabara de flertar com a morte.

- E no que o senhor pensou enquanto esteve sob o jugo do assaltante? - Eu perguntei Minha expectativa era ouvir um depoimento emocionado sobre a família, sobre o amor dos entes queridos e o manjado “nasci de novo”.

Que nada! O cara simplesmente falou:



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